sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Não se pode negociar com a natureza

Marcus Eduardo de Oliveira

“You cannot negotiate with nature”
(The Economist, julho de 2009)

                                                                                                              
A economia é como um organismo faminto em fase de crescimento. Ela consome recursos naturais como árvores, peixes e carvão. Deles, produz energia e bens úteis e cospe resíduos como dióxido de carbono, lixo e água suja. A maioria dos economistas se preocupa com o sistema circulatório do organismo e em como a energia e os recursos podem ser eficientemente alocados. E tende a ignorar seu sistema digestivo: os recursos que o organismo consome e o lixo que produz. Os economistas pressupõem que ambos sejam infinitos.

O parágrafo acima, extraído de uma reportagem publicada pela revista Época (abril de 2009), mostra claramente um equívoco muito comum que é enaltecido pela economia tradicional: ignora-se que a biosfera, além de ser finita, não cresce e é fechada e imagina-se, grosso modo, que a economia funciona no vazio, sem nenhuma interação com o meio ambiente.

A economia tradicional segue não reconhecendo com a primazia que se espera o papel exercido pela natureza junto à atividade econômica. Ademais, a maioria dos economistas não entende um fato simples que para os cientistas é óbvio: o tamanho da Terra é fixo. Nem a superfície nem a massa do planeta crescem ou encolhem. O mesmo vale para a energia: a quantidade absorvida pela Terra é igual à quantidade que o planeta irradia. O tamanho total do sistema – a quantidade de água, solo, ar, minerais e outros recursos presentes no planeta em que vivemos – é fixo.

É nesse ponto que alguns economistas se equivocam e fecham os olhos para a interação existente entre os sistemas ecológico e econômico. O equívoco se torna gritante quando se percebe que grande parte dos economistas menospreza o fato de que os objetivos econômicos estão (sempre estiveram) atrelados à existência física dos limites impostos pela natureza.

É a natureza que determina os limites da expansão econômica e, com ela não se pode negociar (“You cannot negotiate with nature”), como acentuou a The Economist (julho de 2009).

O único limite que a economia convencional consegue enxergar para expandir sua sanha produtiva e assim atender o mercado de consumo é em relação ao capital monetário, nunca em relação ao capital natural.

Assim, enquanto houver disponibilidade e facilidade de recursos monetários, a produção física da economia continuará se expandindo, agredindo substancialmente os serviços ecossistêmicos. Não se pode ignorar e continuar se equivocando quanto aos fatos que são cristalinos e reais: o sistema econômico se desenvolve dentro do sistema ambiental. A economia recolhe da natureza matéria e energia e a ela devolve resíduos sólidos, líquidos e gasosos (lixo).

Logo, o sistema econômico “opera” dentro do meio ambiente. A economia (que se assenta em fundamentos biofísicos) é um subsistema da biosfera que, por sua vez, “funciona” como suporte (base) para a atividade econômica.

A natureza age como fonte e fossa para o sistema econômico. Age como fonte ao fornecer recursos de baixa entropia, e se “transforma” em fossa ao absorver o lixo gerado pelas transformações energéticas (alta entropia).

Aprofundar essa conduta numa velocidade maior do que a natureza possa absorver e se “recuperar” é afastar-se completamente da sustentabilidade, pois se retira mais do que a Terra pode dar em cada período. Por serem finitos os recursos do planeta, cada vez que a economia cresce mais se dilapida o patrimônio natural, maior é a depleção, mais intensivo é o estrago ambiental. Isso tudo pode ser chamado também de crescimento deseconômico, como pondera a mais elevada voz da economia ecológica mundial, Herman Daly.

Crescimento deseconômico ocorre quando aumentos na produção se dão à custa do uso de recursos e sacrifícios do bem-estar que valem mais do que os bens produzidos. Isso decorre de um equilíbrio indesejável de grandezas denominadas utilidade e desutilidade.

Nas palavras de Daly, utilidade é o nível de satisfação das necessidades e demandas da população; grosso modo, é o nível de seu bem-estar. Desutilidade refere-se aos sacrifícios impostos pelo aumento de produção e consumo. Pode incluir o uso de força de trabalho, perda de lazer, esgotamento de recursos, exposição à poluição e concentração populacional.

Grande parte dos economistas não pode mais se equivocar isolando a economia do meio ambiente, tratando o sistema econômico como se estivesse numa redoma de vidro, sem interação com os aspectos da natureza.

O desenvolvimento da lógica econômica (expansão da atividade produtiva) deve passar, antes, pelo respeito em relação à lógica da biosfera. Há e sempre haverá entre a economia e a ecologia uma fina sintonia.

Não é por acaso que o ato econômico (extração, produção, consumo) carrega em si uma dimensão ecológica. A mesma palavra grega “eco”, (casa), em sua origem etimológica, que dá sentido à economia, também deita raiz na origem do termo ecologia.

Essa semelhança não é mera coincidência. O biólogo Ernst Haeckel, criador do termo ecologia, declarou em 1879 que entendia a ecologia como “a área do conhecimento concernente à economia da natureza – o estudo de todas as relações do animal com seu meio ambiente orgânico e inorgânico”.

Embora a economia tradicional faça questão de não contemplar as restrições ambientais, pois a visão predominante do sistema econômico como um todo enaltece loas ao fluxo circular da riqueza, imaginando a economia como um sistema isolado, como se fosse um corpo humano dotado apenas do aparelho circulatório, não há como negar o enorme grau de dependência da economia em relação ao ecossistema natural finito.

É intensa e constante a relação da economia com o meio ambiente. Não se pode perder de vista que o sistema econômico é um sistema aberto que troca energia com o ambiente. Sem a natureza, não há economia.

O fluxo de benefícios produzidos por um ecossistema inclui funções essenciais para a sobrevivência dos humanos e de outras espécies. Quem sustenta a vida na Terra são os ecossistemas. Sem esses serviços ecossistêmicos (disponibilidade de água potável, regulação do clima, biodiversidade, fertilidade do solo etc), não há produção de absolutamente nada. Sem energia, não há trabalho, não há produto. Sem sistema ecológico, não há sistema econômico.
Marcus Eduardo de Oliveira é economista e professor de economia da FAC-FITO e do UNIFIEO, em São Paulo | prof.marcuseduardo@bol.com.br
Fonte: http://domtotal.com/diario_bordo/detalhes.php?diaId=405

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