quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Festa Regional e Seminário semeiam a Paixão das Sementes na Paraíba


Até 06 de novembro, serão realizados dois eventos preparatórios para a VI Festa Estadual das Sementes da Paixão
AS-PTA*, Patac* e Daniel Lamir**
29/10/2014
 
Uma declaração simbolizou e batizou um importante patrimônio cultural na Paraíba. Era 1998, durante um encontro estadual, o agricultor Cassimiro Caetano Soares, conhecido como seu Dodô, falou sobre a importância das sementes crioulas para a vida dele e das famílias camponesas. As palavras de seu Dodô intitularam as conhecidas sementes que eram multiplicadas e conservadas através de gerações. Com Paixão.
As Sementes da Paixão representam a autonomia camponesa e a garantia da agrobiodiversidade nas áreas rurais. Na Paraíba, a cada ano, a colheita das Sementes da Paixão gera mais valorização e articulação política. Unidos, o saber popular e o saber científico reconhecem o valor dessas sementes para nossa vida no planeta.
Nos últimos anos, pesquisas da Embrapa Tabuleiros Costeiros, em parceria com a Articulação Semiárido Paraibano (ASA-PB), revelam que o valor das Sementes da Paixão superaram os aspectos culturais e simbólicos para as comunidades. Os documentos comprovam também o valor na produtividade. Apesar de não necessitarem de insumos químicos, as variedades de Sementes da Paixão são iguais ou superiores às sementes transgênicas no aspecto de resistência aos períodos de estiagem.

De acordo com Gabriel Fernandes, assessor técnico da AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia, quem compra uma semente transgênica fica proibido de replantá-la, devendo comprar sementes a cada novo plantio, tendo a sua liberdade e sua autonomia ameaçadas: “para garantir essa dependência, as empresas patentearam essas sementes modificadas, se tornando ‘donas’ delas. Não contentes, querem ainda liberar as sementes estéreis, ou seja, aquelas que produzem grãos que não são capazes de nascer novamente. Os transgênicos só reforçam o modelo de desenvolvimento baseado na monocultura, na simplificação e na uniformização dos ambientes.
A preservação e conservação das variedade crioulas é um caminho para a convivência com o Semiárido | Foto: Adriana Noya
No importante processo de valorização das Sementes da Paixão, no intervalo de uma semana, serão realizados dois importantes eventos. Amanhã (30) e sexta-feira (31) será realizado o Seminário “Os transgênicos e as ameaças às Sementes da Paixão”, em Lagoa Seca (PB). No dia 06 novembro, é a vez da VI Festa Regional das Sementes da Paixão, em Santo André (PB).
As duas atividades fazem parte dos preparativos para a VI Festa Estadual das Sementes da Paixão, que será realizada em 2015, pela Articulação do Semiárido Paraibano (ASA-PB). O evento estadual acontece desde 2003 e reúne agricultores e agricultoras de todas as regiões do estado.
Seminário - Com o objetivo de refletir sobre a atual conjuntura das políticas de sementes no Brasil e aprofundar o debate sobre os transgênicos e suas ameaças às sementes crioulas, será realizado, no Centro de Eventos Marista, em Lagoa Seca, pela Comissão de Sementes do Polo da Borborema. O evento tem ainda o propósito de fazer um mapeamento do grau de contaminação das Sementes da Paixão para adotar estratégias de proteção das sementes crioulas.

Participarão da atividade mais de 60 pessoas, vindas de várias regiões do estado, entre elas representantes da Rede de Sementes da Articulação do Semiárido Paraibano (ASA-PB) e da Comissão de Jovens do Polo da Borborema.

A programação terá início às 9h da quinta-feira (30), com uma exposição sobre o contexto atual da política de sementes. Será abordado o Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Planapo) e suas oportunidades e desafios para o trabalho de fortalecimento da produção de sementes crioulas no Semiárido Paraibano.
Seminário vai testar transgenia em sementes | Foto: Arquivo Aspta
No período da tarde, será tratado o tema das sementes transgênicas e as ameaças às variedades crioulas, as “Sementes da Paixão”. “O que são transgênicos? A quem interessa os transgênicos? Como são produzidas as sementes transgênicas? Quais são os resultados obtidos em campo com o plantio dos transgênicos?”, são algumas das questões que serão levantadas. Esse momento será seguido de um debate sobre o que pode ser feito para preservar as Sementes da Paixão da contaminação das sementes transgênicas.

Na sexta-feira (31) serão realizados testes a partir das amostras de milho trazidas por representantes dos vários bancos de sementes comunitários do estado da Paraíba. A ideia é montar uma estratégia de produção de sementes livres de transgênicos. “O teste é feito em mais ou menos 10 minutos. A técnica consiste em triturar os grãos com água em um liquidificador e colocar em contato com uma solução aquosa até diagnosticar, por meio do auxílio de uma fita sensível, o resultado como positivo ou negativo da contaminação por transgênico”, explica Emanoel Dias, assessor técnico da AS-PTA, que acompanha o trabalho da Comissão de Sementes do Polo. Em seguida, serão entregues certificados aos agricultores e agricultoras guardiãs das sementes livres de contaminação dos transgênicos. O evento será encerrado com um trabalho em grupo que vai levantar estratégias para continuar o monitoramento da contaminação dos transgênicos nos diferentes territórios de atuação da ASA Paraíba.
Festa Regional - Os onze municípios que compõem o Coletivo Regional das Organizações da Agricultura Familiar e a entidade de assessoria técnica e socio-organizativa à agricultura familiar (Patac), em parceria com a Rede Sementes da Articulação Semiárido Paraibano (ASA-PB), estão em plena mobilização para realização da 6ª Festa Regional das Sementes da Paixão, que acontecerá no território do Cariri Paraibano, no dia 06 de novembro, na comunidade São Félix, em Santo André.
A 6ª Festa Regional das Sementes da Paixão se realizará como forma de celebrar as conquistas alcançadas pela agricultura familiar em meio a tantas ameaças, como o longo período de estiagem que se estendeu de 2012 a este ano na Paraíba. Durante toda a atividade haverá apresentações culturais com peça teatral, apresentações musicais de violeiros, sanfoneiros e declamadores; debates, feira pública, oficinas temáticas, trocas conhecimento e de sementes, culminando com a bênção solene das Sementes da Paixão.
  
Cerca de 500 agricultoras e agricultores guardiãs e guardiões das Sementes da Paixão deverão se reunir em torno da temática “Resistir às ameaças, cultivando vidas” para celebrar as conquistas e trocarem seus conhecimentos sobre as Sementes e também para reafirmar a luta por um território livre de alimentos transgênicos e agrotóxicos, visto que durante a realização da festa também será lançada a campanha “Luta permanente contra os agrotóxicos e pela vida”.
As Sementes da Paixão representam as diversas sementes crioulas, sejam elas de origem vegetal ou animal que foram guardadas e repassadas de geração em geração.  Também está incluído nesse contexto o conhecimento tradicional das famílias camponesas, que em toda história da agricultura vêm conservando, resgatando, selecionando e valorizando a agrobiodiversidade adaptada a cada região.
Bancos para guardar sementes - Todas essas experiências vêm a cada dia se consolidando através das diversas práticas que as famílias agricultoras sabiamente vêm fazendo na  produção e conservação de variedades de sementes, nos seus bancos de sementes familiares e, nas últimas décadas, essas práticas se ampliaram através das casas ou bancos de sementes comunitários (BSC), experiências adotadas pelas comunidades para guardarem suas sementes de maneira coletiva.
Hoje, na Paraíba, existem aproximadamente 220 BSC, dos quais 35 estão no território do Cariri, Seridó e Curimataú paraibano. Os bancos ou casas de sementes surgem como estratégia de preservação e conservação desse patrimônio e fortalecem a autonomia dessas pessoas já que não precisam esperar a distribuição de sementes do governo para realizar seus plantios, além de assegurar que tenham alimentos saudáveis produzidos nas suas propriedades.
Semiárido – As sementes crioulas são fontes da luta pela resistência, autonomia, liberdade e riqueza para as populações camponesas do Semiárido. Organizações da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) e Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) mantêm um compromisso permanente em defesa das sementes crioulas para a convivência com o Semiárido em bases agroecológicas.
* Organizações da ASA
** Assessor de comunicação da Asacom
Fonte: http://www.asabrasil.org.br/Portal

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