segunda-feira, 27 de outubro de 2014

32ª Caminhada da Seca em memória das vítimas do campo de concentração de 1932.

Acontecerá em Senador Pompeu-CE, dia 09 de novembro de 2014, a 32ª Caminhada da Seca, em memória das vítimas do campo de concentração de 1932. Apresentando a seguinte temática: “Pela preservação das águas do Patu, fonte de vida e construção da liberdade – Em defesa da dignidade humana”.

A 32ª Caminhada da Seca acontece no auge do mais longo período de estiagem dos últimos anos e apresenta reflexões pertinentes à convivência com o Semiárido. A temática chama atenção para a questão da segurança hídrica na região. O baixo nível do Açude Patu vem preocupando a população de Senador Pompeu.  Comunidades situadas às margens do açude já enfrentam o problema do desabastecimento. Movimentos sociais alertam para um possível colapso no abastecimento, se as chuvas permanecerem abaixo da média. Chama a atenção também para a questão da degradação ambiental e poluição do Açude Patu; para os Rios Patu e Banabuiú, que são fundamentais para a região Sertão Central, e a preservação dos Casarões da Barragem, porque até o momento não houve, por parte dos órgãos públicos, ações de preservação.

O açude Patu seria a solução para amenizar a problemática do abastecimento d’água na região; as obras foram iniciadas no ano de 1919, mas só veio de fato a ser concluído no ano de 1987. A construção do açude foi marcada por atos de violação de direitos, a começar pelo cancelamento das obras, em 1924. Em seguida, abriram-se os portões do canteiro de obras abandonadas para a efetivação da política de confinamento de flagelados da seca do ano de 1932, prática que foi iniciada no ano de 1915.

No local, o governo promoveu a maior violação de direitos, ferindo a dignidade humana de milhares de sertanejos, que tiveram suas vidas ceifadas.

Na verdade, a sede, a fome, as doenças, os maus tratos, o sol escaldante, não foram os responsáveis pela tragédia, mas, sim, o Estado, que negligenciou na política de convivência com a seca, que na época era chamada de combate à seca.

Com a retomada da construção, em 1984, os agricultores e agricultoras que moravam às margens do rio Patu, que teriam suas terras e benfeitorias inundadas, tiveram que desocupar as terras sem a garantia de indenização justa. Foi através da organização e muita luta, com a ajuda de Pe. Albino Donatti, que se garantiu, através do Centro de Defesa dos Direitos Humanos Antônio Conselheiro, assessoria jurídica, e com isso os agricultores e agricultoras tiveram parte de seus diretos garantidos.

Hoje, 82 anos após o campo de concentração, a população ainda sofre por falta de abastecimento d’água, terra para viver e produzir, educação e saúde de qualidade e uma série de outros direitos que são negados. Isso prova a ineficiência das políticas públicas de convivência com o Semiárido. Os políticos e empresas continuam a se beneficiarem política e economicamente com a indústria da seca, que vem se camuflando com o passar do tempo.

O campo concentração, ou para melhor dizer campos, ainda são uma prática dos governos no presente. Não existe um campo de concentração, cercado por arame, onde as pessoas são aprisionadas, mas as formas e práticas de segregação permanecem. Basta observar os índices de criminalidade envolvendo jovens negros de baixa renda. Não se morre pela fome ou sede de comida e água diretamente, mas pela fome da falta de informação, da violência, das drogas, pelas doenças diversas, pois o sistema de saúde precário não é capaz de oferecer um atendimento eficaz.

Os que morrem pela falta de atendimento médico adequado, as vítimas das mais diversas formas de violências, das drogas, do trabalho infantil, do trabalho escravo e semiescravo, são todos e todas vítimas da incompetência dos governos, que têm negligenciado propositalmente ou não, sabotando a educação e violando direitos fundamentais, inviabilizando a justiça social, configurando-se as novas estruturas de concentração, que não diferem na essência do campo de concentração de 1932.

No campo de concentração de 1932, os flagelados recebiam uma espécie de cartão senha, que lhes dava o direito de retirar os víveres que eram mandados pelo Governo Federal (lembrando que há relatos de sobreviventes de que eram produtos de péssima qualidade, que os produtos eram desviados por comerciantes de Senador Pompeu, à época).  Hoje, vemos a mesma fila nas casas lotéricas, para retirar os víveres da atualidade, camuflados de programas sociais. As favelas nas grandes e pequenas cidades são exemplos de campos modernos.

A Caminhada da Seca mantém viva a memória do fato histórico que não pode ser esquecido. Tem que ser lembrado, não só do ponto de vista religioso, mas também da esperança, da reflexão sobre as políticas de convivência com o Semiárido, sistematicamente negligenciadas. Prova é que atravessamos mais um longo período de seca, o povo do sertão continua a sofrer por falta de abastecimento de água e a sobreviver com esmolas de governos. Essa tem sido a prática que não liberta, que permanece segregando, violando os direitos humanos fundamentais dos povos do Semiárido.

Falta planejamento por parte dos administradores públicos, no sentido de captar e armazenar água para os longos períodos de estiagem e fazer a distribuição equitativa; fata garantir educação no campo e garantir meios para implantação de sistemas de produção adequados e eficazes, para a produção de alimentos e geração de renda.

A caminhada da seca é um importante patrimônio cultural imaterial de Senador Pompeu, que envolve um conjunto de outros patrimônios: o açude e o rio Patu, os Casarões da Barragem, o serrote do Patu, o Cemitério da Barragem, a Caatinga e a fauna, as obras de artes, a devoção às almas da barragem, a próprio fato histórico, tudo isso tem que ser preservado, para que o passado possa servir de luz para iluminar as veredas do futuro.

Fonte: http://cddhac.blogspot.com.br/2014/10/32-caminhada-da-seca-em-memoria-das.html

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